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Intervenção da Sra. PCF no Colóquio Internacional em Argel 29-30.11.2016

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Excelências
Autoridades aqui presentes
Senhoras e Senhores Convidados

É com grande satisfação que participamos neste “Colóquio Internacional sobre a Argélia e a libertação de África”, a decorrer sob o alto patrocínio de Sua Excelência o Presidente Abdelaziz Bouteflika, que reúne intelectuais e personalidades de vários países que vieram saudar o Povo Argelino, através do seu ilustre Presidente e Governo, para relembrar a grande contribuição da Argélia na libertação de África.

Angola e o MPLA nunca esquecerão a ajuda em armas no momento decisivo para combater os exércitos de Mobutu, da África do Sul e os vários mercenários que tentavam, a 15 km de Luanda, tomar a capital e impedir o MPLA de proclamar a independência de Angola, sob a liderança de Agostinho Neto. Sob o troar dos canhões, Agostinho Neto proclamou a 11 de Novembro de 1975, perante a África e o mundo, a independência de Angola.

É-nos grato constatar que os países africanos começam a analisar os últimos 50-60 anos dos seus percursos para deixar as suas reflexões às novas gerações e permitir a consolidação das identidades pós-coloniais e pós-conflitos, rumo ao desenvolvimento. Não podemos deixar de fazer uma referência e prestar homenagem a um dos ícones que apoiou a era revolucionária e independentista de África, o Comandante Fidel Castro Ruz, falecido há poucos dias, em 25 de Novembro, após doença prolongada. Honra à sua memória.

A Argélia foi um dos primeiros países de África a lutar contra uma potência colonizadora e, após a sua independência, a prestar apoio decisivo aos movimentos de libertação nacional por todo o continente. A ajuda prestada a Angola teve múltiplas facetas, desde o treino militar aos nossos combatentes pela liberdade, à dádiva de arma, apoio diplomático, representação em solo argelino do nosso movimento, MPLA, e porque não dizer, a amizade e encorajamento aos nossos dirigentes e militantes nos momentos terrivelmente difíceis da luta de libertação de Angola dirigida por Agostinho Neto.

Angola entra para a cena mundial depois do 4 de Fevereiro de 1961 e do 15 de Março de 1961, com o início da luta armada de libertação. Em 21 de Abril de 1961, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução pela qual urgia Portugal a executar “reformas em Angola” e constituía um comité fiscalizador. Os USA votaram ao lado da URSS e dos países afro-asiáticos. Angola era um dos 3 famosos “ás” de África (Argélia, Angola e apartheid) no dizer de G. Mennen Williams, Secretário de Estado dos USA, em 27 de Novembro de 1961.

A independência da Argélia

A Argélia tornou-se independente em 5 de Julho de 1962 e logo se tornou num dos maiores apoiantes do MPLA. A Argélia era importante para o MPLA por ter sido um país que conquistou a independência pela luta armada. Argel tornou-se mais importante que Rabat e Tunes. Na Argélia, o MPLA treinou os seus primeiros guerrilheiros e dirigentes. É uma cidade de escala em muitas viagens de Agostinho Neto. A CONCP estava sedeada em Argel. A oposição portuguesa também estava em Argel. A “Rádio Voz da Liberdade” da oposição portuguesa era emitida de Argel.

Em Argel, quase às portas de Portugal, vivia Pedro Ramos de Almeida, Álvaro Cunhal, Manuel Alegre, Humberto Delgado, Manuel Tito de Morais, Manuel Sertório, Fernando Piteira dos Santos, Pedro Soares Mário Ruivo, Manuel Lucena e António Lopes Cardoso, entre outros. A casa de Manuel Alegre, na Rue Albert Boench, nº 11 – 6º, em Hussein dey, era o ponto de encontro, quando Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Aquino Bragança passavam por Argel.

Mohamed Ahmed Ben Bella, um dos fundadores da FLN, em 1954, foi o principal líder da luta de libertação da Argélia. Depois de sobreviver a atentados, exílio e prisões, chefiou o primeiro governo argelino após a independência. Em 1963, foi eleito Presidente da República. Neste período, a Argélia tornou-se no país de acolhimento dos movimentos de libertação, incluindo o MPLA.

A abertura de escritório na Argélia

Em 4 de Fevereiro de 1963, Agostinho Neto abriu o escritório oficial do MPLA na cidade de Argel, recebendo das mãos de Mohamed Ahmed Ben Bella, Presidente da Argélia, as chaves do bureau. Presenciaram o acto os embaixadores da URSS, China, Checoslováquia e Bulgária na Argélia.

No mês anterior, Ben Bella enviou para Angola o Comandante Slimane para estudar vias para ajudar o MPLA.
O último grupo de guerrilheiros do MPLA treinados no campo de Oran, na Argélia, chegou a Pointe Noire em Dezembro de 1963. Do grupo inicialmente composto por mais de 50 pessoas, vários ficaram na Argélia onde conseguiram bolsa de estudo ou partiram para outros países, sem autorização do MPLA.

Recordamos que em 1959, Amílcar Cabral tenta contactar os nacionalistas angolanos e mobilizar 11 jovens para serem treinados na Argélia, Tunísia ou Marrocos no âmbito de uma proposta de Frantz Fanon, então conselheiro do Governo Provisório da Argélia. Na IIª Conferência dos Povos Africanos, em Tunes, de 25 a 31 de Janeiro de 1960, Frantz Fanon sugere aos delegados do MAC- Movimento Anti-Colonial que abandonassem a pretensão de libertar as 5 colónias portuguesas a partir de um organismo colectivo e criassem organizações específicas para cada uma das colónias.

Os estudantes que aderiram ao MPLA foram depois para Marrocos onde o EPLA era treinado nos campos Hassan II, Kebdani (campo cedido por Marrocos à FLN) e Kasba Tadla sob chefia de José Mendes de Carvalho (Zeca ou Hoji ya Henda), Manuel Lima, Africano Neto e José Rodrigues Ferreira.

Em Agosto de 1962, Agostinho Neto participa com Mário Pinto de Andrade na cerimónia de juramento de bandeira dos militantes do MPLA treinados em Kasba Tadla, no campo de treinos de Dar-Quel-Denib. A aparição de Agostinho Neto, impecavelmente fardado, foi uma surpresa para todos. E uma alegria porque Agostinho Neto estava vivo e livre. Depois da cerimónia, conviveu e almoçou carneiro assado com os 91 jovens combatentes.

Destes 56 foram treinados em Kasba Tadla e 35 nos campos da FLN da Argélia, em Zangagan, na fronteira com a Argélia. O grupo regressaria mais tarde a bordo do paquete “Jean Mermoz” com armas PM-40 e munições escondidas em malas e caixas de madeira, com destino a Conacry e Pointe Noire.

A questão racial

Agostinho Neto e Mário Pinto de Andrade divergem neste aspecto pois este opõe-se a adesão dos militantes brancos que estavam na Argélia no MPLA e na sua vinda para Léopoldville. Os militantes brancos e mestiços claros, capitaneados por Sócrates Dáskalos, vinham da FUA renascida em França após o seu estrangulamento em Angola pela PIDE. O grupo teve de ficar a espera na Argélia de 1962 até Agosto de 1963, Uns acabaram por tomar outros rumos, outros ficaram no CEA, em Argel, e mais tarde ingressaram no MPLA. Curiosamente, Mário Pinto de Andrade, em conferência de imprensa, em Leopoldville, em 30 de Outubro de 1961, ante as acusações de que o MPLA era dominado por mestiços, defendeu que a mestiçagem era o resultado de relações entre brancos e negras desde o século XV, que os mulatos eram angolanos e não podiam ser vítimas de racismo nem impedidos de participar na luta.

A criação do GRAE

Em 5 de Abril de 1962, a FNLA cria o “Governo Revolucionário de Angola no Exílio” – o GRAE, em substituição do Comité Executivo. O GRAE, com sede em Léopoldville, foi reconhecido por vários países africanos, incluindo a RDC. Holden Roberto não estava interessado na unidade com o MPLA porque desejava alcançar a independência sozinho e sem ajuda do MPLA. Confiava quase exclusivamente na acção armada concentrada no norte. Holden Roberto copiou o GPRA da FLN da Argélia mas foi visto como o reconhecimento da fraqueza militar da FNLA.

O Ghana, Guiné Conacry, Egipto, Mali, Marrocos e Argélia, na segunda metade de 1962, retiram o apoio ao GRAE assim que se torna conhecido que o GRAE recebia financiamentos dos USA. O GRAE ficou limitado a um único apoiante, o Congo Léopoldville que em Julho de 1962, disponibiliza a base de Kinkuzu que se converteu depois na principal base militar da FNLA.

A Missão de Bons Ofícios da OUA dirigida pelos Presidentes do Ghana, Argélia, Tunísia, Mali, Marrocos e Egipto, chegou à Léopoldville, em Abril de 1963, com o intuito de unificar o MPLA e a UPA.

Em Agosto de 1963, os Ministros dos Negócios Estrangeiros da OUA, reunidos em Dakar, seguiram as recomendações da Missão da OUA. Agostinho Neto esteve nesta Conferência e viveu, com amargura e tristeza, a derrota diplomática do MPLA ao ver o GRAE ser reconhecido por muitos países incluindo o Congo Léopoldville, a Nigéria, a Tunísia e a Argélia de Ben Bella!

A partir deste insucesso, Agostinho Neto lança-se numa campanha diplomática para o reconhecimento do MPLA contando com o empenho de Paulo Jorge e Inocêncio da Câmara Pires em Paris, Eduardo dos Santos no Cairo e Argel, Manuel Jorge, Luís de Almeida na RFA, Alberto Neto na Suécia, Mbeto Traça e J. Eduardo dos Santos em Brazzaville.

Agostinho Neto declara ter mais de 250 guerrilheiros treinados em Marrocos e Argélia e mais 200 treinados na fronteira. E informa que o MPLA combate em Nambuagongo, Dembos e Cabinda, apesar do bloqueio do Congo Leopoldville, da sabotagem e dos assassinatos da FNLA.

Depois desta ofensiva diplomática na OUA, Agostinho Neto vira-se para Argélia e escreve, em 27.8.1963, uma longa carta para os militantes do MPLA que estavam, em Marnia e Argel, em treino ante o risco de muitos desertarem ou desistirem em reacção à situação difícil que se vivia.

Felizmente dos 50 guerrilheiros treinados na Argélia, Agostinho Neto ganha um núcleo de excelentes guerrilheiros, onde se destaca Nicolau Spencer, Filipe Floribert, Rui Filomeno de Sá, José António Pascoal, Benigno Vieira Lopes, Manuel Pereira Jesus, Alexandre José Manuel, Henrique Carvalho Santos, Araújo Germano, Mateus Domingos da Silva, Job Francisco, Chamilo Lourenço, Vicente Joaquim, Adriano João Pedro, Aristides Mateus Cadete, José Lelo, João Paulo, Januário Adriano, Mesquito Lourenço, Sebastião Garrido, João Lourenço; Sebastião Pacato, Fernandes Faustino, Catuala Manuel Inácio e Jacques Tchiunfo. E aqui residia a confiança de Agostinho Neto. Agostinho Neto tinha poucos mas bons para a luta sem tréguas contra o colonialismo.

Realizou-se, em Lagos, em 24 de Fevereiro de 1964, uma reunião dos Ministros dos Negócios Estrangeiros da OUA, para tratar do caso angolano. A Missão dos Bons Ofícios foi dissolvida graças a pressão do Ghana, do MPLA e da CONCP (PAIGC e FRELIMO). A reunião ficou-se por um novo apelo à unidade e lembrou que a divisão impedia uma ajuda africana mais eficaz e produtiva. Agostinho Neto contou os parcos tostões que tinha e foi a Lagos pedir a revisão das recomendações de Dakar para a OUA não reconhecer o GRAE. Agostinho Neto levou um memorandum que fez circular por todos os países. Daniel Chipenda e Miguel Baya acompanham Agostinho Neto nesta jornada. O Congo Brazzaville apoiou o MPLA. A Argélia mudou de campo e passou a apoiar a petição do MPLA. A Guiné garantiu o seu apoio.

Um ano mais tarde, a Argélia emitiu o Passeport Diplomatique nº 591/65 que Agostinho Neto usou apenas uma vez para entrar em Maya Maya, Brazzaville, em 4.3.1966. O MPLA estava reorganizado. A Comissão de Inquérito da OUA composta pela Argélia, Ghana e Egipto deram um voto de confiança ao MPLA após a sua missão à Brazzaville, em 1964.

O reconhecimento do MPLA ocorre em 23 a 25 de Novembro de 1964, em Dar es Salam, por decisão do Comité de Libertação da OUA, após ouvir o relatório do Comité dos Três. A decisão reconhece o enorme esforço de Agostinho Neto de reorganização e de reactivação da luta armada em Cabinda, com o envio de quadros importantes e de guerrilheiros treinados em Tlemcem e Boghari, na Argélia, e ao apoio de Massamba Débat que defendeu na OUA o MPLA como movimento de libertação que lutava de armas na mão.

Paulatinamente, Agostinho Neto e o MPLA vão ganhando apoios em África graças a sua paciência de comunicar e convencer a opinião política africana. Ben Bella da Argélia foi o primeiro a reconhecer o MPLA e a ceder o campo militar de Chateau Dun para treino, armamento, passaportes, bilhetes de passagem e apoio logístico. Seguiu-se depois Kwame NKrumah do Ghana e Sekou Touré da Guiné Conacry. Mais tarde, o Sudão e o Egipto também começaram a apoiar o MPLA. Willem Bossier esteve em Brazzaville e visitou as bases de guerrilha do MPLA em Cabinda. Relatou o que viu a Ben Bella, desmentiu haver qualquer compromisso neo-colonial com Portugal e contribuiu para mudar a opinião que a Argélia tinha do MPLA.

Agostinho Neto percebe que não pode defender Cabinda só com guerrilheiros e metralhadoras. E pede a URSS, a Argélia e a Jugoslávia meios de artilharia. Os primeiros misseis de 122mm chegarão, em Dezembro de 1973, em Pointe Noire.

Agostinho Neto convidou a Comissão Militar da OUA integrada pela Argélia, Congo Brazzaville, Egipto e Zâmbia, a visitar Angola. De 22 de Abril a 3 de Maio de 1969, a Comissão, acompanhada por Agostinho Neto, esteve na IIIª Região onde visitou vários destacamentos e povoações sob controlo do MPLA. Muitas das fotos dessa visita foram oferecidas à Fundação Dr. António Agostinho Neto posteriormente.

Em 14 de Maio de 1971, Agostinho Neto visitou a Argélia onde foi recebido pelo Presidente Houari Boumedienne e pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Abdelaziz Bouteflika. Os argelinos continuavam a apoiar os movimentos de libertação em África. Na Presidência, Houari Boumedienne tinha Slimane Hoffman e Yahia Nekli que se ocupavam, entre outros afazeres, do apoio aos movimentos em armas, dinheiro, viagens e contactos. Na Divisão África do Ministério dos Negócios Estrangeiros, estavam Abdelhamid Adjali, Nekli, Mohamed Laala e Abdelkader Messahel para o apoio diplomático. Na FLN, Melaika Djelloul cuidava das representações dos movimentos em Argel.

Ainda em Maio de 1975, a Argélia envia 10 tanques, artilharia pesada e ligeira, armas e munições para o MPLA a bordo do navio “El D’jezair” que desembarcou em Pointe Noire. De Pointe Noire foi transportada para Luanda nas barcaças de Amílcar Correia Mendes.

Excelências,

Há alguns anos atrás, em 2010, tive a alegria de ser convidada a visitar a Argélia e a ver, entre outros lugares, o local onde ainda estavam as reminiscências dos combatentes que por ali passaram para se prepararem em armas para a luta armada de Angola.

No Ministério dos Negócios Estrangeiros de Argélia, tivemos a oportunidade de rever o Ministro para os Assuntos Africanos, Dr. Abdelkader Messahel que se prestou a fazer um depoimento para o Arquivo Oral da Fundação Dr. António Agostinho Neto. Tivemos ainda a oportunidade de entrevistar os senhores Abdelaziz Bouabida, Noureddine Djoudi, Karmed Mouhammed, Bensaci Bey, Djelloul Malaika, Mokthar Kerbeb e Saucha Abessi, produzindo em DVD os seus testemunhos, dentro do programa de trabalho da fundação. Aproveitamos esta ocasião para agradecer-lhes uma vez mais a sua disponibilidade.

Para terminar, desejo grande sucesso ao Colóquio internacional.
Honra e Glória a todos os Heróis do Mundo que deram as suas vidas para que hoje vamos ao encontro da Paz e da Harmonia entre os homens.

Muito obrigada pela vossa atenção.

Eugénia Neto

Luanda, 29 de Novembro de 2016

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