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DEVE-SE ESCREVER PARA CRIANÇAS EMPREGANDO O MARAVILHOSO?

(Seguido do Conto a Formação de uma Estrela)

(COMUNICAÇÃO APRESENTADA À VI CONFERÊNCIA DOS ESCRITORES AFRO-ASIATICOS-LUANDA/ JUNHO 1979)


Por Eugénia Neto

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Esta pergunta vem sendo feita já há alguns anos por todos os que se interessam pelos problemas da infância. Houve quem, em determinado momento, dissesse redondamente que não se devia. Outros exitaram e não se definiram. No entanto, a corrente levava mais a dizer não, do que sim.

Uma das razões que apresentavam, era de que, na sociedade nova que se queria construir, não haveria lugar para as quimeras da sociedade de consumo.

Que ideia essa de se falar de príncipes e de fadas, quando no mundo se contam pelos dedos os reis velhos e se quer criar novas noções, de beleza, equidade e aspiração?

Porque repôr então esta questão?

È que precisamente nos países onde se quer a transformação do homem, o maravilhoso clássico é muito posto em realce, e encaminha-se a criança para ele. Eu diria, mesmo demasiado! Qual o motivo porque se abordam temas que já são velhos e por demais conhecidos? Será pela razão – que talvez não deixe de ser muito valida – de que há obras de arte, que é preciso preservar do esquecimento! E que é sempre necessário fazer a uma ligação entre o passado e o presente? Não só em termos de comparação – e aí insere-se o caminho percorrido pela humanidade, os seus sonhos de beleza, a evolução dos conceitos dos mesmos, o vislumbrar da ciência e o tactear para novas formas de arte – mas porque estas obras de arte pertencem à humanidade inteira e os seus autores foram os percursores dos sonhos presentes e a sua fonte de inspiração. Foi através deles que aceitamos ou repudiamos. Mas foi através deles que construímos o presente!

A retomada destes temas é justa então? As razões que apontei, serão os motivos para os encenadores, e todos os outros artistas, ou isto quererá dizer que estamos em crise de criatividade? Ou as tentativas de inovação têm sido um fracasso?

A inovação é difícil de introduzir, porque o publico, em regra geral, é conservador. Os enovadores de todos os tempos, filósofos, artistas, escritores, etc., normalmente só um século mais tarde são aceites e compreendidos. Esta pode ser também uma das razões, a juntar às precedentes. È que infelizmente, o artista tem de viver! O encenador e a sua equipa, têm de viver! O escritor, o editor, têm de viver!

Mas, e nos países onde a arte é financiada pelo Estado? Porque dar um valor tão grande ao clássico?
Eu penso que deveríamos estudar profundamente esta questão para termos linhas de orientação que viessem a guiar os escritores na literatura infantil, salvaguardando, contudo, a liberdade individual de criatividade.

Entretanto, quanto a mim, os mundos de sonho e feéricos descritos no passado, não eram senão a percepção das realidades científicas presentes e as possibilidades reais dos nossos tempos. “Abre-te Sezamo”, seria ou não, a aspiração de penetrar os mistérios do nosso planeta, de saber como era constituído e a adivinhação de todas de todas as riquezas nele contidas? As jóias não representariam não somente a gama de pedras preciosas com as suas tonalidades impressionantes, mas antes o petróleo, o ferro, o cobre, etc? Seria a percepção do seu subconsciente, o que o autor nos legou e que, habilidosamente, nos despertou o interesse, em termos feéricos?
A bondade normalmente atribuída às princesas, não seria uma compensação para o povo, para fazer o equilíbrio entre o rei muitas vezes tirânico, e a esperança em dias melhores? Não quereriam através destes contrastes, fazer a anunciação de um mundo equitável, belo, equilibrado?

Mas agora temos muitas fontes de inspiração, nos feitos científicos na nossa época. Poderemos cantar as descobertas da terra, e as do espaço. Porque eu penso que deveremos conduzir a criança para as maravilhas da nossa época, e que são muitas, mais aquelas que ainda não vemos mas que, como os autores do passado, as antevemos, e podemos desde já cantá-las. Não seria melhor, a partir de agora, deixar de falar de reis e de príncipes, pois poderá parecer um paradoxo, visto tratar-se de personagens de sistemas sociais que combatemos, e porque ainda hoje, temos uma luta de vida ou de morte para abolir a estratificação da sociedade em classes, por eles inventada, e valorizar o Homem, através do seu trabalho?

É meu parecer contudo, que o maravilho deve ser inserido na vida das crianças, em toda a expressão de arte dedicada para ela. A criança, e mesmo o adulto, têm necessidade de sonhar, de idealizar. A criança, no seu mundo de liberdade, de possibilidades, do tudo possível, esta apta a tudo conceber. E mesmo sem conhecer os caminhos, ela procura-os e tudo acha possível. Um exemplo de como a criança está apta a todas as possibilidades é o desenho. Quantas vezes ao desenhar uma casa, ela põe alguém sentado dentro da mesma, sem parede. A parede não foi necessária.

Há ainda a liberdade do sonho. Aí é ainda mais livre, sem as peias dos conceitos dos adultos e das suas lógicas. Para a criança, tudo tem lógica no seu mundo de possibilidades. E realmente, não será esta liberdade da infância, cujas reminiscências persistem no adulto, que levará o homem sempre a desejar ir mais além, ultrapassando-se sempre a si mesmo e as verdades relativas da ciência?

É por isso que o maravilhoso é imprescindível para a criança, pois a criança é presente e é futuro. E o homem tem de ir sempre mais além, na descoberta do seu mundo, na descoberta do universo, para encontrar novas formas de actuação em relação a si próprio, ao seu semelhante e ao mundo que o rodeia. É uma procura que terá de ser constante, para que a terra baste aos seus filhos, para que venha a haver pão para todos, para que o nosso planeta maravilhoso, seja preservado da destruição. Para que os seus filhos cresçam sadios, sem complexos, sem atrofias mentais, numa palavra, sem traumas. E tudo isto é possível. Que venham os novos filósofos mostrar a verdade do nosso mundo científico.

Será que se poderá afirmar, desde já, que as paralelas se podem encontrar no infinito?

E o que sugerirá ao homem ainda a estrutura do seu cérebro? Os fenómenos da natureza que, ainda hoje lhe estão vedados ele os descobrirá, e trá-los-á á luz do dia, como a água clara das fontes, que nos parece tão natural brotar da terra.

Mas voltemos ainda ao nosso mundo, ao mundo que deverá ser o dos nossos filhos.

O sonho e o maravilhoso, não são apenas as fadas e os reis. Vestamos de luz e de cambiantes as descobertas cientificas dos homens. Por exemplo: ponhamos em simulacro a desintegração dum átomo e os seus efeitos, em proporções ínfimas, mas suficientemente palpáveis aos olhos da criança, e vejamos se ela se interessa mais por fadas ou princesas, ou por esta maravilha. Demos-lhe o mesmo colorido. Mostremos-lhe as correntes eléctricas, a atracção e a repulsão, o equilíbrio de uma célula, de um corpo, de uma superfície. Mostremos-lhe a interdependência da matéria e relacionemo-la com as relações dos homens, em que a parte, deverá imprescindivelmente fazer parte do todo. Em que o homem, precisa de viver e de trabalhar em equipe. Mostremos a necessidade da harmonia das relações humanas, do sentimento de fraternidade necessário, da inter-ajuda necessária entre eles.

Será que se arranjássemos cenários, e uma linguagem própria, a criança não se maravilharia?

Demos vida aos pequenos robots de braços lineares ou de ângulos obtusos, das máquinas modernas, façamos parecê-los com os insectos familiares, pois há neles muitas vezes grande semelhança. A máquina, desta maneira passará a ter vida. Mostremos o trabalho dos seus elementos, de como a máquina não pode passar sem nenhum deles, tal qual o homem não pode viver isolado!

Então partindo da ideia de inserir o maravilhoso nos nossos escritos para as crianças, penso que conseguiremos temas e temas interessantes. Vejamos: além dos já citados, olhemos a natureza e toda a sua forma de expressão. Os oceanos com as suas massas enormes, desmesuradas, em movimento perpétuo; a flora e a multi-variedade vegetal – a cor, a forma, o aroma, o movimento, o cosmos com as estrelas, planetas, cometas. A expansão e retracção do universo: a descoberta e o conhecimento de outros povos, as suas lendas que nos dizem algo do passado, e as suas particularidades.

Será verdade que na Índia, os chamados “Faquirs”, podem realmente viver enterrados durante bastantes dias, e deitarem-se sobre pregos, sem se espetarem? Serão isto lendas, ou os pregos e facas espetadas em determinadas zonas do corpo, mostra um conhecimento anatómico perfeitíssimo, como aqueles que têm as pessoas que fazem a Aquapontura? Será que o homem, em determinada época da sua vida, tenha hibernado, e quando não sabia defender-se do frio, quando nos invernos rigorosos não tinha que comer? Estes fenómenos, dos Faquirs, serão as reminiscências dessa época longínqua? Não têm o urso, o lobo, e os répteis, quando hibernam, uma respiração quase nula? Desta forma, por serem as combustões quase inexistentes, o desgaste do organismo, imperceptível, e o consumo de oxigénio muito reduzido, permitiria sobreviver debaixo da terra? Que qualidades inatas, ou que poder de força de vontade, ou de adaptação – sendo isto verdade – levariam a tal prova?

E que mais infinidade de maravilhas que não há por aí a descobrir! Que sabe um povo de outro povo, que sabe um continente de outro continente?!

Não me tenho cansado de dizer que as crianças devem viver na terra não como em ilhas isoladas umas das outras, sem saber nada das civilizações dos outros povos, dos anseios das outras crianças, dos problemas que têm de enfrentar diariamente. Do sofrimento e da miséria de tantos. As crianças devem considerar que toda a terra lhes pertence e que elas, com as suas peculiaridades como povo, são afinal a parte de um todo.

E mais: e os sonhos dos grandes inventos para facilitar o trabalho ao homem, para lhe aumentar a longevidade!
A invenção da roda, que levou á charrua e ao tractor, e, destes ao carro mais sofisticado. Leonardo da Vinci, Julius Verne, os sonhadores de espaços, legaram-nos, não só a maquete do primeiro avião, mas o desejo irreprimível de conhecer outros mundos do nosso Sistema Solar, e uma vez lá, ir mais além…

Ampére, Lumiére e Marconi, tornaram possível realizar o sonho de muitos cientistas.

O sonho e o maravilhoso, poderá ser tudo isto e poderemos oferecê-lo à criança em fontes claras de sabedoria e tornar-lhe palpável a tecnologia moderna. Não seria interessante que soubessem que o sistema eléctrico do coração foi descoberto, e que se regulariza o ritmo cardíaco com os pacemaker, etc., etc.

A máquina a vapor iria dar origem às grandes transformações sociais.

E quantos sonharam com estas transformações?

Muito antes de Marx, Engels, Lenin, previram um mundo melhor! Os expoentes máximos de filosofia marxista, beberam nas fontes do saber de acumulação dos séculos, na somatória das pequeninas e grandes lutas dos povos.

Com a consciencialização dos operários e camponeses, coma sua inteligência, a sua acção vigorosa, irromperam triunfantes, não só na teorização da filosofia marxista, como na formação e consolidação do campo socialista.

Por isso me parece que há temas sem fim, a dar de maneira atraente, à nossa criança de hoje. A natureza tem de ser olhada de modo diferente, e será desta maneira que talvez a preservemos das bombas descobertas e a descobrir.

Olhemos como as pedras cristalizam, em sistemas. Como as árvores crescem, dão flôr, frutos, respiram. Como a flor se transforma em fruto.

Que venham os Leonardos, os Marconis, que venham novos Ampere, novos Lumiére, para que a luz e os sons sejam trazidos até nós e nos dêem a verdade real do nosso mundo, do nosso universo.

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