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O valor da poesia de Agostinho Neto para as novas gerações.

Há menos de um mês, aqui em Luanda, no Seminário sobre Óscar Ribas, afirmei que ele se concebia a si próprio como um mestiço de pai português e mãe angolana, um filho da terra buscando coleccionar o tesouro da cultura tradicional, popular, castiça e selecta, sobretudo da área quimbunda, mas que, por via da apropriação intelectual pela geração de 50 em bandeira africana e negritudinista e, na actualidade, pelo Governo angolano em símbolo da cultura nacional, portanto, assimilável pelos cidadãos deste novel país, mas que tais factos não justificam que se possa considerar a cultura angolana como mestiça ou, pior ainda, crioula.

É natural e louvável que o Estado queira preservar, reavivar e rejuvenescer (quanto aos usos e costumes, rituais e cerimónias), elementos culturais como a rebita, dança urbana, divertida, discretamente sensual e garbosa, para que a fruição dos entusiastas dançantes não se fique pelo tango ou pelo swing. Torna-se, pois, fulcral, como tem sido desde a independência, a exploração e o culto dos fundamentos bantos da nacionalidade, exercidos, de facto, pelas populações regionais e revalorizados pela intelectualidade empenhada numa prática nacionalista, conquanto a mestiçagem biológica se tenha processado em faixas geo-sociais  apreciáveis e o entrecruzar dos elementos da hélice cultural dialéctica sejam e evidentes nas zonas urbanas em acelerada mutação.


O poema de Agostinho Neto que serve de epígrafe ao colóquio é o exemplo mais directo e veemente-um autêntico apelo ideológico e politico-sobre o dever de os angolanos esclarecidos lutarem contra a assimilação cultural, nas décadas de 40 e 50, usando o seguinte método: por um lado, dar atenção ao povo miúdo, pobre e desqualificado (uma espécie de esforço de proletarização, que Viriato da Cruz também aplicou em “Namoro”); por outro lado, reforçar  a angolanização, o particular esforço da aprendizagem banta e popular, das tradições nativas, maioritárias, em detrimento, naquele tempo, de costumes e práticas originárias do Ocidente, da Europa, herdados dos brancos, exortando ao abandono de snobismos culturais burgueses, cosmopolitismos provincianos e sobretudo de vender a alma ao inimigo assimilador, que era a potência colonizadora, curiosamente, na época, não dependendo absurdamente da cultura de massas euro-americana. Hoje, o inimigo é o ultracapitalismo neo-liberal, selvaticamente  especulador e culturalmente objecto, que tanto procura vender literatura itinerante  no mato como donuts na Ilha de Luanda.

Contra a tendência de a elite cultural angolana, nos anos 40 e 50, se deixar assimilar pelas modas e substâncias culturais do invasor e de  banalidades de consumo de outras prudências de elite alienígenas, o poeta exortava  à reconquista  da sua  peculiaridade ensombrada contesto era o da luta contra a assimilação colonial ,mais faz todo o sentido combater, e ideológica e culturalmente, o excesso de optimismo quanto as crioulizações , mestiçagem ,hibridismos ,misturas ,mesclas  ,amalgamas e outros conceitos e formas de abordar  interculturalidade em países do Sul a partir de conceituação  que decorre de um foco centrado a partir do Norte. Basta pensar, para não irmos mais longe, nesta circunstância, que nenhum teorizador classifica uma sociedade portuguesa, inglesa ou francesa de crioula, mística ou híbrida. Não se  trata negar  a evidência de que as sociedades urbanas são  neste começo do milénio, por via da globalização capitalista e consumista, comunidades em vertiginosa mutação e assimilação  de conteúdos muito diversificados. Mas uma nação jovem, tal como as jovens nações dos  séculos XVIII e XIX, inclina-se por definir uma cultural de natureza  nacional ,determinando uma matriz  fundadora em que a maioria se reconheça, sob pena de alienar os fundamentos culturais do  país. Reconhecendo-se a matriz banta, isso não impende que brancos, caribenhos ou asiático nascido ou naturalizados em Angola não se reconheçam também nessa matriz, ficando livre de aderir a outras componentes  angolana, seja bacalhau à Gomes Sa, funky-jazz da Samba ou poema minimalista à moda de e.e.cumming.


Nos anos 50 Agostinho Neto propunha a  “reconquista” (o re-conhecimento, a apropriação e o usufruto) da cultura banta, embora tivesse consciência de que os intelectuais, por natureza, formação e subjectividade, eram todos, segundo os conceitos epocais da antropologia de origem colonial, aculturados, assimilados, mestiçados. Essa é a questão fulcral para as novas gerações, qual seja a da assunção da especificidade da cultura angolana, da sua irredutível singularidade, que não pode ser classificada de mestiça, híbrida, crioula, branca ou negra. Pode-se correr o risco de observá-la como facto exótico através das disciplinas teóricas do Velho e do Novo Mundo, igualando-a a tantas outras, reduzindo-lhe o alcance sob o rótulo de cultura mestiça ou crioula do Sul, mas, olhando á especificidade do lastro cultural popular, tradicional e genérico, a cultura angolana não pode deixar de ser maioritariamente banta, produzida em línguas nacionais, isto é, em quimbundo, tchokwé, umbundu, português, por uma base sociológica de maioria negra. Não se trata de recusar qualquer forma de cultura moderna e ate pós-moderna (sabendo que isso implica o pastiche ou a colagem, suportes antiquíssimos ou tecnologias de ultima geração), como a pintura de cavalete, o vídeo, a instalação, o hip-hop, a performance, a poesia visual ou painting-body, provenientes de seja qual for o sector social e étnico. E necessário reconhecer que nenhum povo pode viver a sua vida afectiva, subjectiva, estética, intelectual e relacional segundo expressões e produtos de pura importação mercantil, como sejam a banda desenhada com protagonistas brancos, o pequeno-almoço a base de donuts ou Camões e Ezra Pound fornecidos a jovens impreparados sobre a língua portuguesa, o classicismo, a ideologia imperial ou fascismo.


A poesia de Agostinho Neto e, para além da sua qualidade literária, uma peca fundamental na constituição da consciência nacional e um documento histórico da formação do movimento popular de libertação nacional.
Na década de 50, fulcral para a constituição sistemática da literatura, existiram vários poetas que robusteceram o corpus da poesia angolana: Viriato da Cruz, António Jacinto, Mario Antonio, Aires de Almeida Santos, Maurício de Almeida Gomes, Alexandre Daskalos. Porém, o único que expressou a potência da totalidade do povo em movimento para a independência foi Agostinho Neto. E sobejamente conhecida e apreciada a sua capacidade de expressar o ephos do povo angolano, com um uso inédito da língua portuguesa, renovando a sua plástica descritiva e emocional, comparável aos mais extensos e empolgantes poetas de língua portuguesa do século passado.


Volto a repetir o que já afirmei noutros lugares, mas creio que aqui e um fórum ideal para chamar a atenção das pessoas para que algo tende a passar despercebido, simplesmente porque certa comunidade pretensiosa e tendenciosa da cultura tem resistências equivocadas, preconceituosas, ideológicas, de snobismo estético, quando se trata de Agostinho Neto e não as teria se escritor fosse um fascista como Ezra Pound ou Celine. Volto a afirmar que o texto intitulado “ A renuncia impossível – da negação a afirmação” e como que um manifesto ético-estetico em verso, um panfleto poético de suma importância para o século XX da língua portuguesa. Pela sua extensão, pela acutilância social e politica, pela denuncia da escravatura, do colonialismo, do racismo, da dominação e opressão de uns povos por outros, pela fúria e a emoção criticas, pela forca sugestiva das imagens e a implicação acusatória das referencias, pela expressão ampla e descomplexada na língua portuguesa, abre novas possibilidades estéticas e éticas a poesia em português e associa-se aqueles textos grandes e grandiosos que , no século XX, ousaram ultrapassar o comedimento precioso e  o derramamento sentimental.


Por isso, “ A renuncia impossível” emparceira, no amplo fresco da poesia extensa, acusatória e transformadora em língua portuguesa, com a “Ode triunfal”, de Fernando Pessoa, o Manifesto anti-Dantas”, de Almada Negreiros, “A invenção do amor”, de Daniel Filipe e o “Poema sujo”, de Ferreira Gullar, E evidente que “A invenção do amor”  e um poema sobre a paixão de um casal de jovens, mas se esgota na temática amorosa, pois a sua odisseia de amor sufocado pela opressão da cidade e uma gigante metáfora da época asfixiante do salazarismo e de todas as ditaduras e, nesse sentido politico alargado, o poema induz uma mensagem universal. Por comparação, “A renuncia impossível ” e um poema universal, na medida em que mostra a historia dos negros oprimido, escravizados e dominados, escancarando, com pormenor, os mecanismos da dominação capitalista, setentrional e branca, pondo o foco na raiva e na revolta do negro, tendente para a revolução e a libertação, na época a seguir a chamada II Guerra Mundial, em que os países africanos e os negros norte-americanos, entre tantos outros conjuntos geo- sociais, iniciavam o percurso fundamental das lutas de libertação nacional e dos direitos cívicos.


As novas gerações de jovens que, de toda a Europa e ainda de mais longe, chegam as aulas de literaturas africanas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, por via do programa Erasmus de mobilidade estudantil, ficam agradavelmente surpreendidas com a poesia de Agostinho Net, demonstrando admiração e carinho, e, por via desse discurso estético, passam a construir uma imagem impressiva do tempo colonial em Angola, da alienação que pesava na consciência do colonizado e do modo como a arte da palavra contribuiu para o movimento de libertação nacional. Há quase 30 anos que lecciono a poesia de Agostinho Neto e, cada vez mais, os jovens europeus tem curiosidades em conhecer a sua obra e naturalmente a de outros poetas angolano. Nunca escutei desses jovens com idades em torno dos 20 anos uma palavra de menosprezo para com a sua poesia, e têm sempre inteira liberdade de defender os seus pontos de vista em debates constantes e intensos, que procuro que caracterizem essas e todas as aulas.


Na sociedade portuguesa e nos grandes meios mediáticos, nas universidades, nos programas das cadeiras de literaturas africanas, nos bastidores de encontros literários, inclusive por pessoas ditas de esquerda, Agostinho Neto e a sua poesia têm sido desconsiderados, embora seja de ressalvar toadas as excepções. A direita política, ideológica e cultural portuguesa –e mesmo uma parte da esquerda (socialista, bloquista), deprecia a poesia de Agostinho Neto, por razoes politicas ligadas a Guerra Fria e a incompreensão histórica e contextual do 27 de Maio de 1977. A intervenção infeliz de José Eduardo Agualusa, em Luanda, no ano passado, afirmando que Neto e um poeta medíocre, denuncia a sua posição cultural e ideológica, defensora da supremacia da estética de mercado sobre a estética sócio-ética. Por co-relação, percebem-se melhor as causa de, certa vez, uma jovem colega  me ter questionado, num corredor e não num lugar adequado, sobre eu leccionar de forma canónica Agostinho Neto e não Agualusa.
E o mesmo tipo de raciocínio e de atitude dos que, passada a Revolução dos Cravos e já na década de 80, na minha Faculdade, negavam que existisse uma literatura angolana.


Vislumbra-se ai um pensamento conservador, que nem sequer e subtil, mas abertamente hosti, por vezes de sobrevivência colonial-fascista, estrategicamente refundindo para sobreviver em democracia, extremamente elitista, segregador de expressões artísticas diferentes, como o neo-realismo ou a arte povera, cimentado numa vaidade e arrogância democrática nos bastidores das faculdades, dos que, mesmo em democracia, se acham os novos príncipes do mundo literário e que tem ampla cobertura universitária e mediática.
Nos debates sobre cultura angolana, onde quer que se realizem, não se pode deixar de considerar o pensamento e a poesia de Agostinho Neto enquanto lugares de contestação da colonialidade e de recusa do branco, compreendidos no contexto da época, tendo sempre na devida conta que se tratava de um sinal efectivo, carregado de simbolismo, para elevar a estima dos negros e incentiva-los a resistência, posição que tem de ser apreciada em co-relaçãoo com a sua atitude de constituir família com Maria Eugenia Neto, portuguesa branca. Tudo isso-e não é tudo-constitui um legado ético de plena actualidade  e que tem de ser inspirador para as novas gerações de angolanos.



Palestra proferido pelo Dr. Pires Laranjeira da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, durante o Colóquio Internacional Sobre a Vida e Obra do Dr. António Agostinho Neto, realizado em Luanda, de 15 à 16 de Setembro de 2009.

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