Fundação Dr. António Agostinho Neto

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11 DE NOVEMBRO DE 1976

31 de Julho, 2020

Primeiro ano

                             I

Que das chanas ou dos montes                                                 
Dos vales ou dos rios
Não nos venham mais lamentos
Jubile o povo na terra liberta
Onde os heróis repousam

                          II

Os olhos do povo
Tinham questões mudas
Mas os poetas ousados
Falaram de impérios
Falaram de tronos
Potentados imensos
Na areia apagados

Chegara o tempo
E esta era a hora

Quatro de Fevereiro
De sessenta e um
Incendiou a chama
O tufão alastrou pelo solo pátrio
Tocou os pontos cardeais
E implantou-se no leste
Nas chanas feitas rios
Ou ressequidas pelo sol escaldante
Foi aí
Que a batalha decisiva
Foi ganha
E se acordou a paz

                              III

Quem sabe da suspensão dos instantes
Em cada instante
Nos primeiros passos inseguros?

Como contar-vos dos perigos
Do trabalho clandestino
Em países hostis!
Como o coração batia
Ao passarmos as armas
Para o solo de Angola
Benedito
Escondido de dia
Protegido com a noite
Por caminhos secretos

Quatro destacamentos
Para o norte
Quatro destacamentos
Só dois chegariam!
Quando os mortos um dia
Voltarem a ter voz
Na História de Angola
Sabereis o valor
Dos filhos tombados

Como dizer-vos
Dos sacrifícios enormes
Dos nossos Dirigentes
Dos nossos guerrilheiros
E do povo
Que connosco
Construía a liberdade

O sacrifício era grande
Mas sabíamos que com o MPLA
Seríamos livres
Sem dominação

Quando havia missões
Com roupas ou de cascas vestidos
Sem fome ou com ela
Os pés caminhando
Nas areias sem trilho
Dávamos-te Angola
A nossa alma pura
E o esforço de um filho

E quando no rio
Nas canoas frágeis
Sem saber nadar
E a corrente impedia
De tocar as margens
E se a arma caísse
Tínhamos de a apanhar
Da garganta do rio
Chegar a terra firme
Era a vida reencontrar
Se não houvesse emboscada

O nosso armamento
E tudo o necessário
Atravessavam
A África Austral
E do leste seguiam
Para todas as frentes

3000 km de Dar a Lusaka
E ainda o que falta
De Lusaka a Sikongo
E de Sikongo
Às primeiras linhas

Meses que se andavam
Com a mochila ao ombro
Com o armamento
E com os mantimentos
Até avistar as Bases

A nossa logística
Tinha dificuldades tremendas
Superámos as distâncias
Com burros a que cortámos a voz
E trote que trote
Cumpriam as missões
Como companheiros

Ai ué! Sacrifícios sem conta
Que não se pode contar

Bombas que caíam
E matavam os nossos
Napalme que queimava
As nossas colheitas
Jacarés que espreitavam
Os corpos desfeitos
Fugindo medrosos
Das lavras sem vida

Onde estava a coragem
Depois do massacre
Dos nossos companheiros?

Mas era preciso
Caminhar em frente
E o inimigo vencer

E de novo um punhado
Com uma fé sem limites
Retomava a coragem
E planos fazia
Para a guerra avançar

O imperialismo
Enviava para Angola
Armamento moderno
E comprava os traidores
E eles sem honra
Sem povo
Sem Pátria
Vendiam-se
Por trinta dinheiros

                              IV

Nos momentos tristes
Os guerrilheiros cantavam
̶ Queria-me casar
Mas não tenho o que ofertar
Só tenho a estrela
Que na nossa Bandeira
Eu vou defender
Mesmo que para isso
Tenha de morrer

O tempo passava
A guerra aumentava
E também a certeza na Vitória


                             V

Que venha o eco contar
Agora
Das chanas ou montes
Dos vales ou das pontes
E que diga das atrocidades
Dos traidores angolanos
Monstros desumanos
Demónios
Disfarçados de pombas
Que conte
Do mercenarismo
E da vitória do povo
Sobre o imperialismo

Peço aos que mais se lembrem
Que continuem a história
Para a História de Angola
Aos meninos relembrar.

                                          Luanda, 2-7/11/1976

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