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Memória do Cidrália e Invejados no grande “Carnaval da Vitória”

Artur Queiroz

O Carnaval de Luanda nos anos 40 e 50 era genuíno em tudo, até na malícia. Os grupos carnavalescos não dançavam e cantavam por dinheiro, apenas eram pagos naquela moeda bem conhecida de quem canta porque seus males, espanta. No eixo que vai do Bairro Operário ao Sambizanga, passando pelo bairro de S. Paulo, encravado entre os areais dos musseques e a cidade de asfalto, território de assimilados, mestiços farristas e brancos desclassificados, a festa ganhava a dimensão da alegria.

As ruas eram nossas e qualquer um podia ser rei, toda a lavadeira ou criada podia ser patroa. As meninas da vida desprevenida eram princesas que habitavam as profundezas do mar da Ilha do Cabo. As canções carnavalescas eram pérolas de imaginação e humor ácido: “vão todos saber, ó Invejado, róbaste o bacaiau lá no Arfândiga!” Cidrália, Invejados, Kazukuta, Kabocomeu. Entre os passos di lento ou as insinuações da massemba, havia cabo-verdianos tocando violão. E os foliões desbragavam os ares com puitas reco-recos, latas, cornetas e tambores.

Agostinho Neto andou por ali, amigo de cola e gengibre de Liceu Vieira Dias, o génio que um dia pegou em canções carnavalescas e as vestiu de uma roupagem tão exuberante que em breve os Ngola Ritmos (ritimos, para nós) se transformaram na bandeira sonora da pátria. Ou que não hesitou em dar a cor do semba a velhas canções portuguesas sem cor, nem cheiro, nem sabor. Por exemplo: Teodoro não vás ao sonoro! Ainda hoje arrepia só de pensar no som de mestre Liceu e seus companheiros.

As farras de Carnaval no Bairro Operário eram de arromba. Se naquele tempo soubesse o que sei hoje, diria que eram multiculturais. Merengue em força, semba da saudade, mambos e boleros estremecidos. Agostinho Neto estava lá, num abraço fraterno aos Ngola Ritmos e a uma personagem ímpar, amigo do peito de Liceu Vieira Dias, intelectual, beberrão, que trabalhava na fiscalização da Câmara Municipal de Luanda mas passou quase todo o tempo da sua vida a fiscalizar os botequins do Bairro Operário. Chamava-se Queiroz e só falo dele agora porque já o vi apresentado num livro como um pária, ébrio sem eira nem beira, mas não. Foi um dos mentores dos Ngola Ritmos, conviveu com Agostinho Neto e era de boas famílias. O seu único erro foi ter recusado o colonialismo e sobretudo o salazarismo e expressar as suas opções em voz alta. Ele nunca faltou a nenhuma festa de Carnaval, enquanto os desfiles não foram proibidos com o argumento de que podiam servir de disfarce a “terroristas”.

Neto um dia partiu para o Puto e quando voltou já era médico, tinha a sua família e enormes responsabilidades para com a pátria e o seu povo. Esteve entre nós pouco tempo, foi forçado a partir, agrilhoado e desterrado. Mas ficou no coração de todos os que eram capazes de sonhar com a liberdade.
O regresso de Agostinho Neto a Luanda foi a maior festa de Carnaval que os meus olhos já viram. Penso que ele próprio ficou surpreendido com o mar de gente que rompeu todas as barreiras de segurança na aeroporto, com os milhões de pessoas que se juntaram nas ruas de Luanda para mostrar ao nosso Presidente que sobrevivemos porque nunca duvidámos que ele um dia voltaria, para nos ajudar a secar as lágrimas.

Agostinho Neto foi tão bem recebido pelo seu povo que isso assustou os adversários políticos. Regressou em Fevereiro de 1975 e embora o Carnaval ainda estivesse distante, logo ali começou a festa tantos anos reprimida, escondida, amaldiçoada.

Mas como sempre, os ocupantes tudo fizeram para nos roubar a alegria. E em breve a festa acabou e a luz apagou. Mas ao contrário do poema, o povo não sumiu. Ficámos todos ao lado de Agostinho Neto para que a suprema suavidade da vida triunfasse sobre a morte e a tortura.

Um dia, entre tantos perigos e guerras esforçados, os angolanos conseguiram que o último soldado invasor da África do Sul do “apartheid” abandonasse o território nacional, pela fronteira sul. Agostinho Neto lembrou-se então que o carnaval daquele dia prodigioso do seu regresso à velha cidade de Luanda estava em suspenso. E proclamou que o dia em que os exércitos invasores foram forçados a abandonar Angola, era o nosso Carnaval da Vitória. A partir desse momento, os angolanos passaram a sair à rua em Março - mês de tantos sortilégios, das últimas e furiosas chuvas que arrasam o capim - para festejar o Carnaval. Esse ainda é o dia em que faço a festa. O colonialismo era invencível e com Agostinho Neto fomos capazes de “matar o cão tinhoso”. As forças de defesa e segurança da África do Sul do “apartheid” eram invencíveis e nós, ao lado de Agostinho Neto, pusemos os invencíveis em debandada, libertámos o Zimbawe, a Namíbia e Nelson Mandela. Digam lá se temos ou não razões para comemorar o Carnaval da Vitória, não apenas em Março, como proclamou Agostinho Neto, mas todos os dias de todas as nossas vidas.

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